Da Redação
A resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que obriga médicos a declararem vínculos com a indústria farmacêutica parecia o início de uma nova era de ética profissional. Mas, passados seis meses desde que a medida entrou em vigor, o silêncio da categoria fala mais alto que a norma: a imensa maioria dos médicos simplesmente ignorou a obrigação.
Segundo reportagem do UOL, publicada nesta sexta-feira (17), pouquíssimos profissionais ( 30 médicos) preencheram o registro exigido — um número simbólico diante dos mais de 600 mil médicos ativos no país. O resultado é mais do que um dado burocrático: é um retrato de resistência cultural e da fragilidade das instituições quando o tema é transparência.
A Resolução CFM nº 2.386/2024 nasceu com o propósito de expor relações financeiras e institucionais entre médicos e empresas da área da saúde — laboratórios, fabricantes de próteses e equipamentos, entre outros. Pela regra, esses vínculos devem ser informados no sistema dos Conselhos Regionais e também declarados em manifestações públicas. A intenção é legítima: reduzir conflitos de interesse e proteger o paciente de decisões clínicas influenciadas por quem financia, patrocina ou remunera.
O problema é que a boa intenção encontrou uma barreira previsível: falta de adesão e ausência de fiscalização. O CFM editou a norma, mas não estruturou um sistema capaz de garantir seu cumprimento. Não houve campanha de conscientização ampla, nem estratégia de acompanhamento efetivo. O resultado é o mesmo de tantas outras tentativas de autorregulação no país: uma resolução de valor simbólico, mas de efeito prático quase nulo.
Mais grave, porém, é o que a reação da categoria revela. Ao evitar declarar seus vínculos, parte dos profissionais reforça a ideia de que transparência é sinônimo de exposição — e não de ética. Esse medo é sintoma de um modelo corporativo que ainda se protege da crítica pública, mesmo quando o debate diz respeito ao direito do paciente à informação.
A relação entre médicos e a indústria da saúde não é, em si, um problema. O que compromete a confiança é o segredo. Quando o público ignora quem financia pesquisas, quem paga palestras ou quem patrocina viagens científicas, a fronteira entre ciência e marketing fica perigosamente borrada.
A resolução do CFM é um avanço no papel — mas, sem adesão espontânea e sem pressão institucional, corre o risco de se tornar apenas um registro moral daquilo que a medicina brasileira ainda não está disposta a encarar: que ética também se mede pela disposição de se deixar ver.
