Da redação
O aumento dos casos de intoxicação por metanol no país tem levado o governo brasileiro a adquirir antídotos como o etanol farmacêutico e o fomepizol para evitar danos à saúde da população. A boa notícia é que pesquisadores de universidades públicas brasileiras vêm desenvolvendo soluções inovadoras para identificar a contaminação de forma rápida, segura e acessível — inclusive sem a necessidade de abrir a garrafa.
Na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), cientistas desenvolveram um método que utiliza luz infravermelha para detectar adulterações em bebidas alcoólicas. O equipamento emite a luz sobre o recipiente, mesmo lacrado, provocando uma agitação nas moléculas. Um software então coleta e interpreta os dados, identificando qualquer substância estranha à composição original — desde a adição de água até a presença de metanol.O sistema é capaz de detectar alterações em poucos minutos, sem uso de reagentes químicos, e com até 97% de precisão
Segundo a pró-reitora de Pós-Graduação da UEPB, Nadja Oliveira, a equipe trabalha agora para tornar o método acessível em larga escala.
“Estamos desenvolvendo uma solução em que um canudo impregnado com uma substância química muda de cor ao entrar em contato com o metanol. Assim, o consumidor poderá verificar, de forma simples, se a bebida é segura”, explica.
A pesquisa, iniciada em 2023, já resultou em dois artigos publicados na revista científica Food Chemistry, uma das principais publicações internacionais dedicadas à química e bioquímica de alimentos.
Enquanto isso, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, pesquisadores do Instituto de Química (IQ) criaram uma técnica simples e barata para detectar metanol em bebidas e combustíveis. O método, desenvolvido em 2022, identifica o contaminante em poucos minutos, sem necessidade de equipamentos sofisticados — uma alternativa à tradicional cromatografia gasosa, que pode custar até R$ 500 por análise e exige laboratórios especializados.
O processo ocorre em duas etapas: primeiro, adiciona-se um sal à amostra (gasolina, etanol ou bebida), que transforma o metanol em formol. Depois, um ácido é incorporado à mistura, provocando uma mudança de cor que indica o nível de contaminação. A reação leva cerca de 15 minutos para bebidas alcoólicas e 25 minutos para combustíveis.O resultado pode ser observado a olho nu, por meio da cor final da solução:
Verde → ausência de metanol
Verde amarronzado → 0,1% a 0,4%
Marrom → 0,5% a 0,9%
Roxo → 1% a 20%
Azul-marinho → 50% a 100%
A expectativa dos pesquisadores é transformar a tecnologia em kits de baixo custo, estimados em R$ 10 por unidade.

Para a professora Márcia Ângela Nori, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenadora da Câmara de Engenharia Química do Crea-BA, a inovação pode representar um avanço importante na proteção ao consumidor:
“Diante da perfeição das falsificações, um kit como esse seria uma ferramenta valiosa de controle. Mas é essencial que os resultados sejam precisos e que os consumidores priorizem produtos com origem rastreável e responsáveis técnicos”
Com a disseminação de métodos como esses, o Brasil pode se tornar referência na detecção rápida e acessível de metanol — uma substância tóxica cuja ingestão, mesmo em pequenas quantidades, pode causar cegueira, danos neurológicos e morte.
