A FOTOGRAFIA QUE INCOMODA

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Noite de sábado. Estamos na sala do Cine Art Pajuçara. Grande parte das cadeiras já estão ocupadas. Pessoas ainda entram, quase todas trazendo pipocas. Já sentadas, seguramos o maior pacote de pipocas vendido na lanchonete. Vamos assistir O Último Azul. O filme tem como diretor de fotografia Guillermo Garza e foi dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro, que também assina o roteiro em parceria com Tibério Azul.

O filme começa. Pouco tempo depois, minha companhia comenta: a fotografia é feia. Não pergunto o que a incomoda na cinematografia. Seria a iluminação, a paleta de cores, a lente usada, a disposição dos elementos na tela ou o ângulo pelo qual foram capturados?

Minutos depois vieram os problemas no som, algo recorrente quando assistimos a filmes nacionais. Intrigada, já em casa, procurei explicações. Encontrei algumas que falavam desde a forma como o som é captado até a escolha dos equipamentos usados para isso. Mas segundo o crítico Jean-Claude Bernardet a má reprodução do som nas salas é o que tem prejudicado os filmes brasileiros, já que os estrangeiros, cuja língua não se entende, são legendados.

Apesar do veredicto da minha companhia sobre a fotografia e a dificuldade de entendermos alguns diálogos, seguimos imersas no filme.

O Último Azul

Embora vendido como uma obra distópica, O Último Azul dialoga bem com a nossa realidade quando expõe a precariedade enfrentada por grande parte da população idosa no Brasil e a ausência de políticas que lhes garantam dignidade, nessa fase da vida. Talvez tenha sido a fotografia dessa dura realidade, mostrada desde o início, que tenha incomodado a minha acompanhante. Mas haveria outra escolha estética possível? Defendo que não. A arte tem o papel de provocar, de inquietar. Parafraseando Ferreira Gullar – a arte existe porque a realidade não basta.

E quanto ao caráter distópico? O que estão chamando de distopia na película, a meu ver, é, na verdade, a explicitação de uma cruel política de descarte: idosos pobres são levados para uma “colônia” — da qual nada se sabe e de onde nunca mais retornam, independentemente da vontade da família. Difícil não pensar que essa ficção apenas amplia algo que já está em curso em nossa sociedade em nome do equilíbrio fiscal e do crescimento do PIB sem distribuição de riqueza e combate às desigualdades.

Recentemente, Armínio Fraga, um dos porta-vozes do mercado, sugeriu o congelamento do salário mínimo por seis anos, o que empurraria 60 milhões de trabalhadores brasileiros a jornadas de trabalho ainda mais prolongadas para complementar a renda.

Manifestações pela redução da jornada de trabalho

No filme, a política de descarte de idosos tem como justificativa a impossibilidade dos filhos de cuidarem dos pais em razão da extensa carga de trabalho a que estão expostos. Na realidade, o projeto da deputada federal do PSOL , Erika Hilton, para reduzir a jornada de trabalho, acabando com a escala 6×1, que tem ampla aprovação da sociedade, está travado no Congresso.

O casamento indissolúvel e de fidelidade canina do Congresso com o Mercado é fiador do equilíbrio fiscal sem combate às desigualdades, base do descarte de pessoas. Dessa união simbiótica – Congresso e Mercado – vem também os ataques aos mínimos constitucionais para saúde e educação e a qualquer política que, mesmo timidamente, enfrente as desigualdades, inclusive as regionais.

Este ano, o Presidente da Câmara, Deputado Hugo Motta (Republicanos/PB), dando mais uma demonstração da sua lealdade, criou um grupo de trabalho para analisar a reforma administrativa com o discurso de combate a privilégios no setor público e, de fato, eles existem, mas segundo o relator da proposta, Deputado Pedro Paulo – PSD/RJ, o texto , para atender Motta, pode incluir a desvinculação dos benefícios previdenciários ao salário mínimo e dos pisos da saúde e da educação às receitas.

Imaginem o cenário – saúde e educação ainda mais precarizadas, salário mínimo congelado, aumento da carga horária de trabalho dos economicamente ativos, aposentadorias de valor menor que o salário mínimo, menor poder de compra, mercado interno desaquecido, desemprego em alta – isso lhes parece distópico?

Concluo dizendo que valeu muito a pena ir ao cinema! Tenho feito questão de assistir a produções nacionais e, mais uma vez, saí tocada pela força do nosso cinema.Viva a cultura brasileira!

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