A CONTÍNUA TENTATIVA DE GOLPE

Compartilhe

​A extrema direita brasileira ainda está inconformada com a derrota de seu candidato à presidência do Brasil nas últimas eleições. Também não perdoou as instituições que não aderiram ao seu plano e, assim, impediram seu intento de matar o presidente e vice-presidente eleitos, além de um ministro da Suprema Corte. Ademais, não suporta a realidade de que, fora do poder presidencial, o país vivencia o crescimento da economia, a queda do nível de desemprego, o combate ao desmatamento, à fome e à desigualdade, o fortalecimento da cultura, o incentivo ao pluralismo e o respeito à diversidade. Assim, mantém a tentativa de golpe em movimento.


No exterior, alia-se a seus “iguais” para impor penalidades econômicas e financeiras aos brasileiros e constranger autoridades responsáveis pelo julgamento dos golpistas. Internamente, sequestra o Congresso Nacional, impondo pautas repudiadas pela maioria absoluta da população – conforme pesquisas realizadas por diversos institutos – deixando claro a sua aversão ao povo e à democracia.


Diante disso precisamos refletir: por que pessoas tão descomprometidas com os ideais civilizatórios tornaram-se nossos representantes? Por que silenciamos diante de suas candidaturas? Por que aqueles que tentaram mostrar tais disparates não foram ouvidos? Por que continuamos a eleger, eleições após eleições, aqueles que já nem escondem o desprezo à nossa cidadania? E o mais importante: para onde isso vai nos levar?


Fato é que já se fala em pós-democracia. Em recente artigo no jornal El País, Manuel Saez expôs os motivos do enfraquecimento da democracia no mundo. Entre outros estão a desconfiança nas instituições, as crises de representatividade e o descrédito na política numa sociedade transformada pela revolução digital que trouxe novos mecanismos de informação e comunicação, instalando o império da pós-verdade. Desse modo, com o mundo liderado por conglomerados tecnológicos, que atuam para a alienação dos seres humanos, abriram-se as portas para um cenário insólito e incerto da pós-democracia, onde a polarização afetiva resulta em um instrumento eficaz para a mudança da ordem global. O caminho trilhado por Saez, se seguido, poderia nos trazer respostas às perguntas levantadas anteriormente. Mas até que ponto estamos dispostos a nos dedicar a ele?


Para quem se interessa, Saez mostra por onde começar: é preciso estar atento àqueles que, eleitos pelo voto popular, dedicam-se a corroer a confiança na democracia.


Conheces alguém que eleito várias vezes pelas urnas eletrônicas fez e faz campanha contra ela e contra a Justiça Eleitoral? Há também aqueles que, depois de eleitos, bloqueiam políticas de inclusão, diversidade e igualdade; criam bodes expiatórios; e evocam a ira dos seduzidos, usando múltiplas formas de manipulação da realidade – como no caso das narrativas sobre ideologia de gênero e kit gay, exemplos de pós-verdades que levaram pessoas a agir baseadas em mentiras.


Além disso atacam a ciência, a intelectualidade, as artes, a imprensa e desejam a morte dos opositores. Quantas vezes testemunhamos isso nos últimos anos? A campanha contra o isolamento social durante a pandemia da COVID é ilustrativa.


Com isso chegamos a conclusão de que caminhar para a pós-democracia não é uma fatalidade, é uma escolha. Nas últimas eleições presidenciais o Brasil disse não a ela, mas,de forma incauta, elegeu um congresso nacional sedento por um país autoritário. A maioria dos parlamentares que lá está deseja um país onde seus crimes não possam sequer ser investigados, uma das razões para manter a tentativa de golpe sempre em movimento.

Por Lúcia Barbosa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *